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Farol de São Thomé (RJ), anos 70, a pequena cidade não tem luz elétrica, as luzes são dos lampiões a gás e do próprio farol que em círculos, e em um ciclo que dura toda a noite, ilumina algumas casas por alguns segundos. Principalmente os telhados. 

Fábio é uma criança de cabelos descoloridos pelo sol, que passa a maioria dos seus dias brincando na areia do quintal ou da praia. Dois quarteirões separavam os dois locais.

Sua brincadeira predileta é criar "brinquedos" com as conchas que se apresentavam em uma abundância absurda, aos milhares, em quantidade e também em formatos, tamanhos e cores. Também usava algas secas, gravetos, ossos de peixes, carcaças de siri, tampinhas e pedaços de embalagens plásticas de produtos que pareciam vir do outro lado do oceano, já bem descorados pela água salgada e pelo forte sol, assim como o seu cabelo. Alguns pedaços plásticos e restos de seres desconhecidos, meio que "fossilizados", se misturavam as conchas. Para ele, quase tudo era peça. De montar.

 

Ele fazia, por exemplo, um buraco ovalado na areia, que o cabia sentado dentro com as pernas dobradas, moldava com a ajuda de um pedaço de madeira lisa ou com a sola de um chinelo na sua frente um pedaço de areia plana e ia decorando este espaço com conchas, tampinhas plásticas, gravetos... e com mais alguns riscos desenhados na areia com um palito de picolé, ele tinha um painel de controle completo e já estava dentro do seu foguete espacial. O apertar dos "botões" e o movimento das "alavancas" fazia a nave espacial decolar para os planetas mais distantes. Lá estava ele, com a cabeça no espaço sideral e com seus pés fincados na areia. Assim eram seus dias até o último raio de sol.

 

São Paulo (SP), Fábio - hoje também Faoza - diz que essas brincadeiras de certa forma, nunca pararam, elas continuam até hoje (2024), só as peças que foram mudando ao passar dos anos. Já usou porções de tintas para colorir acetatos de filmes de animação, juntou pedacinhos de papel para fazer tirinhas, usou pixels para criar capas e ilustrações digitais para grandes editoras como Santillana, Meio & Mensagem, Richmond, Positivo, Abril, Globo, Ediouro, Moderna, Saraiva, SM e Folha de São Paulo. Também usou pixels para criar logotipos e ilustrações digitais que participaram de mostras coletivas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Santiago, Buenos Aires, Sarajevo, Lisboa e Xangai.

 

A pouco mais de dois anos, abandonou as temáticas infantis e infanto-juvenis, bem como a paleta de cores primárias.

Segue brincando de montar, usando pixels em sua maioria em tons de marrom e amarelo dourado. Por vezes minimalista, por vezes abstrato, em variadas "praias" como música e arquitetura, Faoza está se desconstruindo e com a ajuda das novas imagens que espelham este seu momento, de mudança e liberdade, está também se reconstruindo. 

 

"Colocar em cheque meu próprio julgamento do que considero belo, do que considero feio, é um ótimo jeito de brincar de montar coisas que ainda podem me fazer voar."
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